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O Saladero não morreu!
Às margens do rio Quaraí, acha-se, no meio de destroços e ruínas, um
pobre e velho casarão abandonado, posto de lado por não servir mais.
Ele agoniza ali, envolto numa tristeza deprimente. Imerso no abandono
e no esquecimento, vai se desfazendo aos poucos, lentamente, ano a ano
até não existir mais... Num entardecer, eu contemplava as suas ruínas
e imaginava os seus dias de glória e prosperidade já extinta.
Procurei recordar da primavera dos seus anos, rememorar os fatos mais
salientes do seu passado. E parecia-me ouvir uma voz antiga, saindo
daquelas ruínas a ensinar coisas sobre uma história de esperança...
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Ele tinha sido construído numa época de fartura na região da Tríplice
Fronteira. E pouco a pouco, ergueu-se na pampa imensa a beleza forte
da sua arquitetura. Depois, surgiu a "pagadora", local onde os trabalhadores
do Saladero faziam as suas compras; o "banco francês", num belíssimo
estilo colonial, para residência apalaciada do Gerente-Chefe do Saladero
e também para abrigar vários escritórios e agências do Banco Francês
e Italiano, com correspondentes nas praças de Montevidéu e Buenos Aires.
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A grande fábrica exportava para o porto de Montevidéu e Rio Grande.
Havia muita quantidade de charque, velas de ótima qualidade chamadas
"Gladiador", o queijo Lagranhã comercializado desde 1896. O curtume
que produzia couros tratados, peles de bezerros, meias de solas, marroquins,
cabritilhos e pelicas. Aproveitando a grande fase Saladeril exportava-se,
anualmente, 6.000 kilos de queijos suínos.
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Em 20 de agosto de 1887 inaugurou-se a linha ferroviária entre Uruguaiana
e Barra do Quaraí. As locomotivas, movidas a carvão de lenha, arrastavam-se
pela pampa verde com suas imensas filas de vagões, parando nas estações
de Itapitocay, Guterres e, por fim, Barra do Quaraí.
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O Saladero testemunhou épocas de ouro e de sangue.E após ter feito
trabalhos sem conta, o velho Saladero morria, sem que a gratidão humana
erguesse, ao menos, um muro de arrimo para assegurar suas paredes quase
centenárias... Sua carcaça vai desmoronando, castigada pelo tempo e
pela indiferença humana...A alma do casarão findava, lentamente, entre
ruínas esquecidas. O Saladero morreu... pensei. Mas, surgindo das profundezas
daquelas pedras, pareceu-me ouvir:
-- Enquanto houver alguém que venha a este lugar lembrar as épocas
que não voltam mais, enquanto houver gente para contar... eu viverei!
Argemiro Rocha
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